GPS, uma nova velha mídia
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Minha irmã casou no mês passado. Como toda minha família é do Rio de Janeiro, na penúltima semana de abril a capital paranaense teve uma certa migração de cariocas. Entre Eiras e Barbozas, creio que tínhamos em torno de cem familiares impolgadíssimos com o casamento da primeira sobrinha mulher.
Mesmo sendo muito hospitaleira, a casa de minha mãe não tornou-se o refúgio oficial da família. Afinal uma pessoa por metro quadrado foge dos limites higiênicos e psicológicos de convivência. Pensando nisso, meu pai prontamente “descolou” um abrigo para metade da família. Havia apenas um pequeno contratempo, a casa ficava em outra cidade, a 40 km do centro de Curitiba.
Além de todas as peculiaridades encontradas nas instalações da residência metropolitana, o meio de transporte foi um fator levantado logo no início da negociação. Apesar de toda essa parte da família estar vindo de carro, ninguém conhecia Curitiba – muito menos a cidade ao lado – a ponto de se sentir seguro no quesito quero-ir-para-aquele-lugar. A solução foi simples, um GPS é claro.
Após alguns dias de atividades intensas e espalhadas por toda Curitiba e região, a semana passou voando e sábado, o dia do casamento, havia chegado. E foi apenas no segundo tempo da festa que eu pude conversar mais calmamente com essa metade de familiares. Eles contaram que, depois de algumas tentativas de sobrevivência na casa que meu pai tinha arranjado, acabaram vindo para Curitiba e agora estavam hospedados em um hotel. Pediram desculpas por não terem ido ao meu aniversário na quinta-feira por causa da chuva que pegaram voltando do Parque Estadual de Vila Velha. Parecia que, apesar dos contratempos, o GPS estava sendo bem útil. Mas para a minha enorme surpresa, nem todos gostaram dele.
Os segundos seguintes foram tomados de uma forte necessidade por respostas. “Como assim não gostaram do GPS?” eram as palavras que passavam pela minha mente. Preciso confessar que até agora ainda não consegui entender muito bem os motivos que levaram alguns familiares, não vou citar nomes pois continuo amando todos eles, a simplesmente se fecharem para esse artefato tecnológico tão útil. Ele é fácil de usar, te diz como chegar a algum lugar que você quer chegar, avisa quando está acima do limite de velocidade e ainda por cima basta espetar um pendrive pra rodar um filminho. Vamos falar a verdade, “Como assim não gostaram do GPS?”.
Algumas justificativas foram dadas como “eu sou do tempo quando se parava para perguntar” ou “o GPS não sabe de nada, fez a gente entrar na contramão”. Não quero investigar a repulsa dessa pequena fatia dos navegantes à moda antiga, mas quero chamar a atenção para aqueles que não apenas gostaram do brinquedinho, mas já estavam perguntando onde poderiam comprar um daqueles. Eles perceberam que não precisavam mais saber como chegar a um determinado lugar, só precisavam saber onde ele fica. Foi uma quebra de paradigmas, algo lindo de se ver. Quando a tecnologia consegue fazer isso com alguém eu preciso confessar que fico feliz por viver nos dias de hoje.
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Trazendo essa experiência matrimonial para o nosso cotidiano, o Wikipedia define gadget como “uma giria tecnológica recente que se refere, genericamente, a um equipamento que tem um propósito e uma função específica, prática e útil no cotidiano”. Quando um artefato consegue ser prático e útil no cotidiano, ele deixa de ser apenas algo a mais que você carrega e torna-se parte da forma como você se relaciona com o mundo. É ai que a famosa frase vem à tona “nossa, como consegui viver sem isso até hoje!?”. E o GPS é algo mais ou menos assim.
Tudo bem, sei que o GPS não é algo tão novo assim. Mas pensando em sua aplicação no mercado automotivo, creio que ele seja o melhor avanço tecnológico desde a invenção do próprio automóvel. Sim, eu posso estar exagerando, afinal durante todas essas décadas tivemos os vidros elétricos, a injeção eletrônica, os motores mais possantes, os bancos mais confortáveis, o câmbio automático, os motores menos possantes e mais econômicos, e por ai vai. Mas a questão é que mesmo com todos esses avanços, não tínhamos nada que melhorasse de fato a tarefa ir-para-tal-lugar.
Sim, todos já ouvimos falar do GPS e, novamente, nem é algo tão novo assim. Mas quando falamos em novas mídias e a maneira como elas estão influenciando a nossa cultura, normalmente pensamos na internet, nas redes sociais e nos apetrechos tecnológicos de última geração. E isso não está errado. Pois, voltando mais uma vez a Wikipedia, “novas mídias é um termo amplo que normalmente se refere a soma de novas tecnologias e métodos de comunicação para se diferenciar dos canais de comunicação tradicionais como TV, radiodifusão, imprensa, etc.”.
Eu acredito que novas mídias não seja apenas isso, ou que pelo menos podemos dar um passo além. O cerne da questão não está em simplesmente fugir do tradicional revista-tv-rádio, mas em fazer a comunicação como um todo de forma diferente.
Há algum tempo atrás muitas pessoas criticaram o Google por eles terem veiculado na tv uma propaganda do Google Chrome. O site m&m online (http://www.mmonline.com.br/noticias.mm?url=Google_lanca_seu_primeiro_comercial_na_TV) afirmou na época que “até mesmo o Google está enxergando que o YouTube e a publicidade de buscas têm limites. Isso porque a empresa está lançando seu primeiro comercial de televisão, que promove o navegador Chrome.”
O que o pessoal não “pescou” direito foi que o vídeo já estava no YouTube há algum tempo, junto com outros 10 que foram criados por diferentes agências. Com base nas estatísticas de visitação, um dos vídeos foi escolhido e veiculado numa mídia “offline”. Eles fizeram uma versão beta do comercial. O triste é que a afirmação da m&m oline apenas enaltece a linha que não precisa existir entre as novas e velhas mídias.
Mas… e o GPS? Ah, sim. Vamos lá.
Mesmo sendo um artefato tão bacana, inteligente e tecnológico, o GPS possui um “quê” de nova velha mídia. Eu, e aqui entramos num aspecto bem pessoal, acredito que velha mídia é toda mídia que mesmo conhecendo as possibilidades atuais existentes de disseminação e compartilhamento da informação, tende a não utilizar isso em favor dos seus usuários. E a maneira como a informação existe no GPS ainda é uma via de mão única. Ele fala e você escuta. Ainda não faz parte da natureza nativa do funcionamento da ferramenta os feedbacks dos usuários.
Já tem se falado há algum tempo em serviço de informação de trânsito via GPS (http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI3384460-EI4799,00.html), mas seu funcionamento ainda baseia-se na centralização da informação em uma operadora. Isso já é um início, mas ainda está longe de ser um serviço 2.0, como existem milhares na internet.
Deixe eu exemplificar a importância desses feedbacks. Nas férias de início de ano eu estava voltando do Rio de Janeiro guiado pelo GPS. Como estava chegando perto da hora do almoço, pedi para que ele marcasse os restaurantes existentes ao longo do percurso. Opa, olha o GPS sendo um meio de promoção dos estabelecimentos alimentícios. Entre os diversos apresentados optamos por um e pedimos para que o sistema nos desviasse até o local.
Após a frase “você chegou ao seu destino” eu percebi que ou restaurante havia se mudado ou o GPS tinha se enganado. Até ai tudo bem, faz parte da vida. O que me deixou encucado foi o fato de eu não ter como marcar no mapa que aquele restaurante não existia ali. Ou seja, outras pessoas também iriam passar por essa mesma situação e ninguém teria aprendido nada com isso. #fail
Concluindo, existem alguns pontos importantes que precisam melhorar para que o Sistema de Posicionamento Global (GPS) dê o próximo passo. Um deles, como exemplificado acima, é a possibilidade do feedback instantâneo dos usuários e isso nos leva ao segundo ponto que ao meu ver é o mais importante, a conectividade do aparelho. Ele precisa “estar na rede” e o custo desse serviço deve ser acessível a toda a população. Só assim teremos então uma nova mídia com um mundo de possibilidades.